Contra a intolerância religiosa, Alan Barbieri esclarece mitos e verdades de religiões afro-brasileiras

A Umbanda que é uma religião com grande influência da cultura afro, desperta curiosidade e medo em algumas pessoas, seja pela desinformação, pela imagem propagada pelo senso comum ou até mesmo por preconceito, cercada de especulações e lendas sobre o que acontece nos terreiros. 

Famosos como Henri Castelli, Juliana Paes e Miguel Falabella são adeptos declarados da religião umbandista, o que ajuda a derrubar barreiras contra o preconceito e a intolerância. No entanto, muitas questões relativas à umbanda precisam ser discutidas e esclarecidas na sociedade para derrubar de vez mitos sem fundamento.

Hoje uma das principais vozes contra a intolerância religiosa e o preconceito, é o sacerdote, médium umbandista e escritor Alan Barbieri: “a melhor arma contra a intolerância e o preconceito é a informação, o respeito e o diálogo. Minha função como líder religioso é promover a paz e trazer à luz da verdade todos que estejam dispostos a se despir dos preconceitos e dos estereótipos”, conta.

Além de ser responsável pelo Templo Escola Casa De Lei em São Paulo, Alan Barbieri é hoje o principal influenciador digital de umbanda do Brasil e dono do maior canal de estudos sobre espiritualidade e umbanda em português da web.

Alan Barbieri respondeu a alguns mitos e questionamentos sobre a umbanda:

1 – A umbanda não é uma religião de paz e frequentadores das religiões afro-brasileiras buscam fazer o mal e invocar o mal para outras pessoas através de feitiços

Mito. A umbanda prega a paz e o respeito entre os povos. Essa ligação das religiões de matriz africana, como a umbanda e o candomblé, com o mal, conforme apontada por alguns, é nada mais do que racismo e vem da associação que se deu no senso comum do negro com tudo que de alguma forma é ruim no mundo. No passado tudo que vinha do negro era ruim, logo a religião dele também seria.

O que de fato a gente precisa entender é que quem faz o mal não é a religião do negro ou do branco, e sim o homem. A religião não é a responsável pela atitude do indivíduo em si e nem tampouco promove o mal nas pessoas. A religião serve para despertar o bem, independente da origem, com o papel de religar o homem a Deus e resgatar o Sagrado dentro do indivíduo, a partícula de Deus que está em cada um. Qualquer coisa que promova o mal entre as pessoas não pode ser considerado religião.

O que ocorre é que muitas vezes pela atitude de um muitos pagam. Não é porque um padre molesta uma criança que todo o catolicismo não presta e sim que aquele padre é pedófilo e precisa assim pagar pelo seu erro. Do mesmo modo que não é porque um Pai de Santo resolve fazer mal a alguém que toda a umbanda não presta. Aquele Pai de Santo é que é mal e precisa pagar pelo seu erro.

2- Se eu fizer alguma coisa a um umbandista ele vai se vingar de mim através de trabalhos espirituais para me prejudicar.

O umbandista não tem recursos práticos, litúrgicos e religiosos para prejudicar uma pessoa. Não há práticas dentro da religião que ora faça o bem e ora faça o mal. Não há ferramentas para fazer mal às pessoas. Qualquer prática que faça  mal a alguém não é umbanda. 

Juliana Paes/Reprodução / MF Press Global


3- Divindades afro-brasileiras são demônios. As entidades que se manifestam na umbanda são o diabo ou servem a ele.

Isto novamente está atrelado ao racismo e ao preconceito. Na época da escravidão houve uma demonização de tudo que pertencia ao negro, levando a acreditar que as divindades, cultura e costumes tinham relações com coisas ruins, e isto em uma época que a igreja católica era extremamente dominante. 

Tudo que não era explicado pela Bíblia era considerado demoníaco.  No entanto, enquanto a Bíblia tem 3500 anos aproximadamente e a cultura africana tem 5 mil anos. Logicamente a bíblia não explicaria a África. 

Por conta desse preconceito, tudo que vinha da África tinha a ver com o diabo. Prova disso é que os negros eram obrigados a seguir os preceitos da Igreja para salvar a sua alma, pois ele já teria nascido servindo ao diabo.

Hoje dentro do senso comum e da grande massa, infelizmente essa informação se prolifera e multiplica também graças a algumas denominações evangélicas que insistem em afirmar que os exus são demônios, serventes do diabo ou quiçá o próprio diabo. É o futuro a repetir o passado e o nosso papel é desconstruir essas inverdades pouco a pouco. 


4- Religiões de matrizes africanas sempre estão ligadas a sacrifícios de animais

O sacrifício animal não é exclusivo de religiões de matriz africana. A prática sempre existiu dentro do islamismo, judaísmo e pode ser vista até mesmo na Bíblia, no Velho Testamento. No entanto, a umbanda não tem a prática de sacrifício animal no seu fundamento. Muitos confundem a umbanda com o que é feito no Candomblé. 

Mas o curioso é a grande massa considerar esta prática ruim. Normalmente a pessoa que critica o sacrifício animal feito em um templo religioso é a que usa sapatos e bolsas de couro, que come alimentos de origem animal, que usa cosméticos testados em animais e come em grandes cadeias de restaurantes que vivem do comércio agropecuário.

Quando as pessoas dizem que é injusto um animal morrer em um terreiro de candomblé, que pratica sacrifício animal, é porque elas não entendem que aquele sacrifício é de cunho religioso e que toda a carne daquele animal é consumida ali mesmo, mas nenhum deles se sensibilizam com centenas de milhares de galinhas mortas para alimentar os brasileiros todos os anos. O problema está na galinha morta pelo negro.

Eu não pratico sacrifício animal porque não é uma prática da minha religião, mas eu não posso apontar o dedo pra ninguém se eu tenho carne no meu prato e como carne. O abate de animais pelos açougues e matadouros é absolutamente muito mais cruel do que a forma como esses animais são abatidos nos terreiros.

Miguel Falabella//Reprodução / MF Press Global


5- Todos que frequentam religiões afro são macumbeiros


Alguns dizem isto porque desconhecem a origem desse termo. Macumba na verdade é um instrumento musical, um tambor, que começou a ser utilizado dentro de alguns ritos afro-brasileiros no Rio de Janeiro.

Então falava-se que naquele terreiro onde se tocava aquele tambor que havia macumba. Logo macumbeiro era o frequentador dos terreiros que usavam esse instrumento musical.

Hoje o termo é usado de modo pejorativo e é ofensivo quando se referem assim a nós. As pessoas de fora da religião usam essa palavra para ofender ou para classificar aqueles que, em sua concepção, praticam o mal.



6- Umbandistas não acreditam em Deus e nem em Jesus

Acredita-se sim em Deus. Existe sempre um único Deus. Não se cultuam vários deuses na umbanda, isto é mito. Existe um único Deus que pode ser chamado como Deus, ou Olodumaré, como N’Zambi, e que vai ganhar muitos nomes a depender da cultura. Deus pode ser chamado Allah para os muçulmanos, por exemplo.

Quanto a Jesus, em termos históricos e religiosos ele existe há aproximadamente 2 mil anos e culturas religiosas africanas existem há mais de 5 mil anos. Jesus ainda não havia nascido quando a África já existia, assim como culturas antes do cristianismo. 

No entanto, religiões que vieram depois, mais recentes, que receberam influências do cristianismo, absorveram as lições e a presença de Cristo. Por isso, a Umbanda, que tem aproximadamente 120 anos, é uma religião cristã que tem na sua base os princípios de Jesus. Todo terreiro de umbanda tem um altar que tem a imagem de Cristo de braços abertos.

A umbanda tem influência dos ensinamentos e virtudes de Jesus Cristo, mas não do catolicismo e do protestantismo. 

Henri Castelli/Reprodução / MF Press Global


7- Terreiros são lugares ermos e escuros sem a menor preocupação com a higiene e questões sanitárias, onde se podem ver cadáveres de animais apodrecendo

Isto é uma grande inverdade, mito. Muitas pessoas tem uma imagem muito distorcida, e por acharem que a umbanda é algo voltado pro mal, acham que o terreiro de umbanda é como aqueles filmes de terror ou uma casa das bruxas de filmes de Halloween, um lugar escuro, velho e com animais mortos pelo caminho. O terreiro de umbanda não é isso, nunca foi e nunca será.

Os terreiros de umbanda antigamente ficavam nos fundos dos quintais das residências e eram bastante simples por serem mais numerosos nas periferias. E devido a perseguição religiosa da época, não havia investimento com a infraestrutura para não chamar atenção da polícia,  que em muitos casos invadiam sem aviso prévio.

Hoje os terreiros de umbanda tem ocupado cada vez mais espaço em locais onde até mesmo as igrejas estão ocupando, saindo da periferia e deixando de ser exclusividade dos “menos favorecidos”. Hoje você encontra terreiros em bairros nobres de São Paulo como o Jardins, a Paulista e regiões centrais. 


Com isto, a ideia que a umbanda é para poucos, para uma minoria e para pobres está cada vez mais se desconstruindo, não só em São Paulo mas no mundo. Há terreiros de umbanda em Miami, Austrália, Portugal e até mesmo no Japão, mostrando que a religião não empobrece ou prejudica de alguma forma a vida de seus adeptos.



8- Para se tornar um umbandista é preciso fazer pactos com espíritos e uma vez tendo se iniciado, nunca mais poderá sair.

Mito. Para se tornar umbandista basta estar disposto a fazer o bem. Para ser considerado umbandista tem de estar disposta a mudar o mundo a sua volta e se tornar uma pessoa melhor, corrigindo seus defeitos, fraquezas e estar disposto a buscar o que te faz feliz. 

Não é preciso fazer um ritual, um pacto, iniciação ou nada semelhante. Para isto basta reconhecer a umbanda como parte da sua vida e passar a expressar os valores e virtudes ensinados pelos Guias de luz que se manifestam em nome de Deus. Isto torna uma pessoa umbandista.

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